quinta-feira, 28 de setembro de 2023

/// dos hiatos


"Iremos juntos separados, as palavras mordidas
uma a uma , taciturnas, cintilantes 
_oh meu amor , constelação de bruma!
ombro dos meus braços hesitantes !
Esquecidos, lembrados , repetidos
na boca dos amantes, que se beijam 
no alto dos navios ; 
desfeitos ambos, ambos inteiros ,
 no rastro dos peixes luminosos, 
afogados na voz dos marinheiros."

(Eugênio de Andrade)

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sábado, 23 de setembro de 2023

// imprescindível paisagem


"Mas, para quê? Para quê tanto céu?
Para quê tanto mar ?
Para quê ? De que serve essa onda que quebra 
No vento da tarde  De que serve?
Inútil paisagem
Pode ser que não venha mais
Que não venha nunca mais 
De que servem as flores que nascem 
Pelo caminho
Se o meu caminho Sozinho não é nada." 
(Tom Jobim)

Ah,Tom Jobim, preciso contrapor :
Por quê não?
 O  que me salva é essa 'imprescindível' paisagem
 com tanto azul , tanto mar chocoalando
 as ondas
tanto vento brincando nas árvores e os  ypês 
vermelhejando os meus caminhos.
Apesar da saudade de quem não vem mais.
Sozinha , sou forte.
(liscosta)

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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

// Sinal Fechado


"Olá, como vai? Eu vou indo, e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe?
Quanto tempo, pois é, quanto tempo

Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Pô, não tem de quê Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo
Talvez nos vejamos, quem sabe? 
Quanto tempo, pois é, quanto tempo

Tanto coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge à lembrança  Por favor, telefone,
eu preciso beber Alguma coisa rapidamente
Pra semana, o sinal   Eu procuro você,
vai abrir, vai abrir  Prometo, não esqueço
 Por favor não esqueça, não esqueça
 Não esqueço, adeus."

(Ronaldo Boscoli , canta Paulinho da Viola) 

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sábado, 16 de setembro de 2023

// enquanto não amanhece


"É  quando a família dorme , 
_ inertes as mãos nas dobras dos lençóis pesados
 é que a mulher se exerce.
 Na casa quieta onde ninguém lhe exige 
 ninguém lhe pede nada 
 caminha enfim rainha nos cômodos vazios
 Demora-se no escuro. E descalços os pés
 aberta a blusa pode entregar-se
 plácida ao silêncio."
 
(Marina Colassanti)

(ponte Vitóriia x Vila Velha , a noite)

terça-feira, 12 de setembro de 2023

// escrevo escrevo


"Agora escrevo pássaros,
Não os vejo chegar , não escolho , de repente estão aí,
um bando de palavras a pousar 
uma por uma 
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir,
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor."

(Júlio Cortázar)

domingo, 10 de setembro de 2023

// dos meus azuis


'Depois de tudo
 te amarei
 como se fosse  sempre antes
 como se
 de tanto te esperar 
 sem que te visse
 nem chegasses
 estivesses   eternamente
 respirando perto de mim.'

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

/// para não esquecer

 


" Lembra de mim  Dos beijos que escrevi  Nos muros a giz
 Os mais bonitos Continuam por lá
 Documentando Que alguém foi feliz Lembra de mim
 Nós dois nas ruas
 Provocando os casais  Amando mais  Do que o amor é capaz
 Perto daqui  Há tempos atrás   Lembra de mim 
 A gente sempre se casava ao luar  Depois jogava
 Os nossos corpos no mar   Tão naufragados
 E exaustos de amar    Lembra de mim 
 Se existe um pouco    De prazer em sofrer
 Querer te ver 
 Talvez eu fosse capaz  Perto daqui  Ou tarde demais 
   Lembra de mim "

( Ivan Lins, Vitor Martins)

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

// fragilidades


 " Marola.  Lábios cor de coral : 
se você  chegar mais perto,
 se apurar os ouvidos, nesse silêncio
 talvez  escute o sussurro do mar. 
 Se você dormir, eu canto para você.
 Não, meus olhos não são de ressaca.
 Mas meus cabelos formam marés, ondas
 cada vez mais altas em que enroscam peixes.
 Estrelas do mar.  Uma água viva 
 Penteio com cuidado, feito fosse água doce.
 Reparto ao meio para você passar 
 Com as mãos em concha, dou de beber
a quem tem sede."

(Thamires Araújo)

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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

// a fera e o dono


"Tu estavas de joelho junto à fera
um titã, que rugia , que rosnava -
Na tua face impávida, severa ,
Nem sombra de temor se advinhava.

A morte ali espreitando, à tua espera.
E cada gesto teu a ignorava ,
Como se protegido pela esfera
De aço que a vontade em ti forjava

- A fera é o Soneto ! .,   afiançaste.
Não soube se o domastes, ou não domaste,

Porque a noite caiu Fiquei com sono
E fui dormir . Ainda vislumbrei.
Em sonhos os vossos vultos, mas não sei . 

    Qual de vós era a fera e qual o dono"


 
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( esse é o gato de Genebra , das netas , a minha Pitty é mais calma )

domingo, 27 de agosto de 2023

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

// pequenas epifanias


(...)

“Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias.
 Então peguei e joguei-o pétala por pétala,
 depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada,
 para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltasse a ser pó,
 húmus misturado à terra, depois não sei ao certo,
 voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, 
 palma - de -santa – Rita, lírio ou azaleia,
 vai saber que tramas armam as raízes
 lá embaixo no escuro, em segredo.”
 
(Caio Fernando Abreu)
em _a morte dos girassóis_

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

// infinitivo impessoal


"Andava lendo e lendo textos, poesias , historinhas.
 E de tanto ler ficava tentando descobrir como seria aquele poeta.  
 Muitas vezes perguntei  :  que homem será esse meudeus !
 Irressistível  Enigmático  Interessante.
 E já estou a um bom tempo paquerando e ele não entende.
 Algumas vezes, até enciumada dos
 sentimentos calorosos, das poesias dedicadas,sem nome,
 apenas idealizada. Não achava vestígios meus e pensava
 enquanto lia:
 não estou aqui, nem ali e nem se atreve a se ver
 em alguma frase _repetia baixinho: não enlouquece,
 não enlouquece, respira,  respira... Volta lá, quem sabe
 te encontra em alguma  fruta  madura ou em um
' bom bocado perto da sua boca' 
 E assim, ia se enredando.
 A vida seguiu e mesmo sem ter os olhos a boca
 e os abraços, seguia lendo e 
 lendo porque queria no mínimo,senti-lo ali
 naquela tela fria.
 Nenhum retrato, não sabia como era, nem quem era. 
 Até agora me pergunto que encanto aquele.
 Tâo interessante era, que chegava a ensaiar alguma poesia ,
 mesmo sem saber nada de metáforas e prosopopeia.
 comum em suas escritas.
 Era só inspiração do nome e sobrenome . Ainda hoje,
 algumas vezes, levo comigo o poeta
 para perto, quando me ajeito na cama.Terá  explicação ?
 Ou será a perfeita explicação
 de como se inicia os amores platônicos ?"

( autor desconhecido)


* Em tempo _  particularmente, acho a era diigital
  muito interessante !  claro,  cuidando-se para  
  não perder a lucidez.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

// sonhando grande


"A noite deita-se comigo
 na fenda do tempo
 Os dedos do luar penteando os cabelos do sonho
 Oh, meu amor 
 podes passar pelo meu sonho podes
 ficar no meu sonho mas
 não me acordes."

(Yao Jingming)

sábado, 12 de agosto de 2023

// das cartas e confetes - parte IV


"Eu sei e você sabe que a distância não existe.
 Enquanto isso vai flertando aí com a natureza.
 Aqui , o sol recolheu e nuvens se formaram
 como se um temporal fosse desabar.
 Digo-lhe depois, se desabou. E se gostas de novidade,
 já lhe conto que descobri uma nova habilidade:
 Escrevo escrevo ,escrevo, depois espremo e
 não sai uma limonada. Por isso, antecipo o ponto final
 neste bilhete de espelhos côncavos, assim
 não pode dizer que não falei de flores "

E são assim as cartas: felizes e
'em permanente vaivém
do otimismo ao pessimismo 
'sempre em torno do amor e cheia de temores.
 Movediça.'
Nunca se sabe _ se encerram o jogo ou se
 avançam na brincadeira .
 :))



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terça-feira, 8 de agosto de 2023

// uma flor


...
 à quem talvez não vejamos mais, ou talvez sim,
 porque a vida ri-se das previsões e põe palavras
onde imaginamos silêncios,
e súbitos regressos quando pensámos que não 
voltaríamos a encontrar-nos.'

( José Saramago )

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sexta-feira, 4 de agosto de 2023

// mar de menina


'
Havia um mar,
e ali brotava uma ilha
povoada de lobos e de pensamentos.
Havia um fundo escuro e belo
onde os náufragos dançavam com sereias.
Havia ansiedade e abraço.
Havia âncora e vaguidão.

Brinquei com peixes e anjos,
fui menina e fui rainha,
acompanhada e largada,
sempre a meia altura
do chão.

A vida um barco, remos ou ventos,
tudo real e tudo ilusão.'

 ( Lya Luft)

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terça-feira, 1 de agosto de 2023

// dos vazios


O real acabará por vir, 
indelével, 
embrenha-se nas paisagens de modo a  cobrir-nos  os olhos
 desses olhos que não vejo dessa fonte que nao bebo
 desse canto que não ouço
 desse corpo .


domingo, 30 de julho de 2023

// outra face


'Há um duelo permanente entre duas personalidades
que habitam, talvez ,em todo mundo;
a convencional,
 que faz tudo direito :
 a outra , a estranha,
agachada no porão da alma ou num sotão;
que é louca, assustadora, quer rasgar as tábuas da lei.
transgredir, voar com as bruxas, romper com o cotidiano.
E, interfere naquela boazinha,
 que todos pensam conhecer bem.'

(Lya Luft)

quinta-feira, 27 de julho de 2023

// entre um jogo e outro



...
' E a gente brinca 
e rola e ri
para depois sentar 
nos lençóis descompostos
o corpo ainda suado
e continuando sempre o mesmo jogo
falar a sério
 de literatura.

Te beijo no ombro e quieta penso:
um outro amante assim
Senhor
que trabalho terias para me arrumar
se me tomasses este."

(Marina Colasanti)

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segunda-feira, 24 de julho de 2023

// depois do verso


'Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti :
olhos semi-cerrados,  em precauções
de tempo a sonhá-lo de longe e sem ti
 
 Dele ausento os teus olhos,   sorriso, 
boca, olhar :    tudo coisas de ti, mas
coisas de partir ...      e o meu alarme
nasce :  e se morrestes aí no meio do
chão sem texto , que é ausente de ti?
E se já não respiras, se já não te vejo
mais,          por te querer te empurrar
lírica de emoção ?     e o meu pânico
cresce : se tu não estiveres lá ?   e se
tu não estiveres  onde o poema  está.

Faço eroticamente respiração contigo
primeiro um advérbio,       depois um 
adjetivo ,   depois um verso todo  em
emoção e juras .
  E termino em  cima
do poema,  no presente de indicativo,
artigo às escuras.'

( ana luisa amaral)

sábado, 22 de julho de 2023

// das ciladas


'... uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada.
Não se fala nada e tudo é transparente; 
  qualquer palavra é um gesto 
em sua orla os pássaros cantam apenas uma
 espécie de caos
 no interior tenebroso da semântica.
 ... escrevo, leio, rasgo, toco fogo
e vou ao cinema.'

(Torquato Neto)

quarta-feira, 19 de julho de 2023

// idas e vindas


'Olhava-te. O barco partia,
sobre águas calmas do mar,
nada via,apenas meu olhar 
de paixão por ti , que fugia...
Mas o vento sul soprava,
veio como alento .Logo vi 
trazer a musa que esperava.'

(Toninho )
blog aqui  
20/07 (dia do amigo)
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segunda-feira, 17 de julho de 2023

// das amizades coloridas


'Amigo , toma para ti o que quiseres,
passeia o teu olhar pelos meus recantos, e
 se assim o desejas, dou-te a minha alma inteira.
Beba do meu cântaro se tens sede
Faz com que se desvaneça 
este desejo de que todas as rosas me pertença.'

Pablo Neruda

sexta-feira, 14 de julho de 2023

// do jeito das cartas


"Estragas-me a paz
e eu preciso das minhas solidões, de bocados mentais sem ti. 

Começo a ser doença obsessiva ao repetir-me
 por poemas isto :
as tuas invasões à minha paz

(podia até em jeito original
pôr aqui umas notas sobre  ti : cf ., vide : textos tal e tal )
Mas é que a minha paz fica toda 
estragada quando te penso amor .

Interrompi os versos por laranjas
 E volto sempre a ti .  É estranho que pacíficas laranjas 
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais,
e que se chove corro a apanhar-te,
não te vás desbotar ou romper, ou sei lá, por úmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

Mas é que não és tu : sou eu  que ando estragada 
as minhas solidões não as preciso
e a minha paz, coitada,
já teve a mesma sorte 
dos bocados mentais que te falava 
no verso três 
da página anterior."

(Ana Luisa Amaral)

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segunda-feira, 10 de julho de 2023

// não leve a mal



'Não leve a mal  Se eu estiver meio confusa
Eu vejo luzes de neon    Toda vez que passa por mim
Não leve a mal Se voce disser olá e eu flutuar.  Em um
mar onde a lua mística  brinca de devastar com a maré
Não leve a mal   Se eu estiver agindo distraída     Estou
pensando nos fogos de artifícios Que estouram quando
quando você sorri Não leve a mal Se eu me dividir feito
luz refratada Eu estou só viajando Numa ilha iluminada
 pela lua  Às vezes duas pessoas se encontram
 Aparentemente sem razão Elas estão passeando na rua
De repente troveja e chove em todo lugar  Quem pode
explicar a trovoada e a chuva? Mas existe alguma coisa
no ar.  Não leve a mal      Se eu ir  e vir como a moda
Eu posso estar ótima amanhã  Mas desesperada ontem
Não leve a mal Se eu cair no meio da moda  Pode ser
inacreditável Mas não vamos dizer adeus
Pode também ser fantástico.'

(Luiza Possi)

sexta-feira, 7 de julho de 2023

// alguns sons antes das manhãs


"As vezes harmonia e desarmonia ganham fôlego
para se somarem
em algo que parece raro, definitivo , surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro ergue-se finalmente
 diante dos olhos
não exatamente música mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce dos ângulos
de ironia e esperança alegria e indiferença
e rebate na luz dos olhos
acendendo-se apagando-se."

(Tatiana Faia)

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terça-feira, 4 de julho de 2023

// dos segredos


'Ninguém soube o que ligou
as nossas vidas caladas,
a urgência das palavras 
 ali ditas ou trocadas
E ninguém supôs que houvesse 
no frio som transmitido
Um grito de águas paradas.'

(Albano Martins)

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sábado, 1 de julho de 2023

// dos excessos


'Queria um poema de respiração tensa e sem pudor.
 Com a elegância redonda das mulheres barrocas e o avesso
 todo do arbusto esguio ...
 Um poema feito de excessos e dourados, e belo
 na sua pujança obscura e mística.
 Ah, como eu queria um poema diferente da pureza do granito e
 da pureza do branco,
 da transparência das coisas transparentes.
 Um poema exultando na angústia,
 uma alameda inteira de rododendros por onde o vento, ao passar, 
 parasse deslumbrado e em desvelo ...
 Um contra- reforma do silêncio'. 

(Ana Luisa Amaral)

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